Gay negro sofre duplo preconceito social


Para um homem gay branco vivenciar sua homossexualidade no ano de 2003 do século 21 é tremendamente difícil. Imaginemos então um homem gay e negro vivenciando sua orientação sexual nestes tempos que correm? O gay negro sofre na pele – algo visível – a discriminação racial pelo fato de ser negro. Sofre também, muitas vezes silenciosamente, a dor emocional – algo não visível – de ter a orientação sexual homossexual. Ele é duplamente discriminado pela sociedade, por que tem a pele negra e por ser homossexual. O pior é que freqüentemente o gay negro é vítima também da discriminação racial que parte do seu “irmão” de orientação sexual, o homem gay de pele branca.

Vamos evidenciar dados objetivos para analisarmos a questão racial. Tomemos como exemplo o Brasil, o país tido hipocritamente como o paraíso da miscigenação racial, onde todas as raças “convivem em harmonia”. E também os Estados Unidos da América (EUA), tido hipocritamente como a maior democracia do mundo, o “paraíso da liberdade”. Pois bem, se compararmos estes dois paraísos, no tocante ao preconceito racial o Brasil está em pé de igualdade com os EUA.

A distância em termos de justiça racial que separa os EUA do Brasil é mínima quando o assunto é inclusão social da população negra. Apesar do primeiro ser muito mais desenvolvido economicamente do que o segundo. Aqui se encontra uma prova de que desenvolvimento econômico não leva necessariamente à inclusão social. Em ambos os países, o racismo ainda é gritante. O acesso do negro à educação de qualidade, ao trabalho e remuneração e ao atendimento no sistema de saúde são fatores preocupantes.

O relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) intitulado de A Hora da Igualdade no Trabalho, divulgado no dia 12 de maio de 2003, nos mostra que:

Renda mensal: no Brasil a renda mensal de um trabalhador negro é 50% inferior a do branco e nos EUA para cada dólar pago a um branco, um negro recebe o equivalente a 40% desse valor.

Pobreza: nos EUA, de acordo com os indicadores socioeconômicos do censo norte-americano da década de 1990, 10% da população branca vivia na pobreza, contra 29,5% da negra. No Brasil não precisamos de dados estatísticos, vejamos ao nosso redor a cor da pele dos miseráveis e proletários brasileiros nas ruas, na periferia das grandes cidades, nos lixões etc.

Saúde: pesquisa do Institute for Social Research da Universidade de Michigan (EUA) aponta que o racismo não está apenas nos setores educacionais e no mercado de trabalho. O número de mortes em conseqüência de doenças consideradas mais incidentes na população, como problemas cardíacos, câncer e diabetes é maior entre os negros. Em muitos casos, isso se deve à diferençiação racial que existe desde o momento do diagnóstico até a qualidade do tratamento oferecido. Será que no Brasil a realidade é diferente ou ainda pior?

Educação: nos EUA, para entrar na universidade, o aluno precisa ter uma boa pontuação no SAT, que é um teste similar ao vestibular brasileiro. Quanto melhor a pontuação, melhor a faculdade que ele entrará. Como um aluno negro, que já tem uma renda menor do que um branco, pode entrar na melhor universidade se isso significa mensalidades mais altas? No Brasil, segundo estudo da Comissão de Políticas Públicas para a População Negra (CPPN), durante o período de matrícula do segundo semestre de 2001, só 1,3% dos alunos de graduação da Universidade de São Paulo (USP) eram negros.

Origens do racismo negro

No caso do Brasil, onde estão as raízes da brutal discriminação racial? Primeiro temos que compreender que por trás da origem do preconceito racial existe a questão política e econômica. O branco dominador e colonizador explorando historicamente o negro escravo.

O Brasil se caracteriza por uma diversidade étnica que é produto do processo histórico que misturou num mesmo território três grupos distintos: portugueses, índios e negros de origem africana. Esse contato possibilitou a formação de uma cultura plural, levando à construção de um país inegavelmente miscigenado. País este construído na base da exploração humana sob o regime da escravidão, inicialmente com os índios e posteriormente com os escravos negros africanos que eram capturados e traficados da África (1548). A classe dominante formada pelo branco colonizador português construiu uma hierarquia de classes que deixava evidente a distância social entre senhores e escravos. Os índios e os negros permaneceram em situação de desigualdade, marginalidade e exclusão social. Esta situação era necessária para se manter a escravidão e a exploração.

Para Heler (1988), o preconceito está pautado em um forte componente emocional que faz com que os sujeitos se distanciem da razão. Ele era necessário para manter a exploração econômica, apresentado o negro como uma raça inferior, incapaz e desprovida de qualidades que só o homem branco possuía.

A justificativa sustentada pela “biologia do branco colonizador” apresentava a raça branca como sendo naturalmente mais pura, saudável, superior, nobre, esteticamente mais bonita, de inteligência e sabedoria elevadas. Evidentemente que este raciocínio é estúpido, anticientífico e errôneo. Porém, eficaz o suficiente para reproduzir a ideologia dominante e manter as diferenças, a exploração e os privilégios. Consolidou-se culturalmente a suposta superioridade do homem branco. O negro escravo passou a ser uma “criatura humanamente inferior”.

É nesta conjuntura socioeconômica que surge o racismo, arquitetado racionalmente para garantir à dominação do branco. A raiz do preconceito é sobretudo baseada na exploração econômica. Hoje, a dor do negro vítima do preconceito foi alicerçada na humilhação, nos sentimentos de medo e inferioridade que lhes foram inculcados durante séculos.

Consciência de seu valor

No cenário histórico atual, que é reflexo do passado, cabe ao homem gay negro se impor dentro e fora da comunidade gay, através de suas organizações culturais, sindicatos e associações. O desafio do gay negro é maior do que a do gay branco. Ele tem que lutar contra a dupla discriminação, recuperar sua auto-estima e reivindicar inclusão social. Deve ter autoconsciência de que, ao contrário do que lhe foi imposto secularmente pelo explorador branco, ser negro é bom e bonito, pois tudo começou há milhões de anos no coração da mãe África. Foi lá que surgiu o primeiro ser humano e ele tinha a pele negra.

Se existe diferença de cor de pele é porque a natureza é sábia e mudou a pele dos homens para que pudessem se adaptar e sobreviver em diferentes climas no planeta, possibilitando que a espécie humana continuasse a existir. Se existem homens gays negros e brancos é por que a natureza é sábia, mais uma vez, e busca o equilíbrio evitando um superpovoamento do planeta que poderá causar um desequilíbrio populacional com o desaparecimento do ser humano. Portanto, a homossexualidade existe para conter a explosão demográfica. Ela tem um papel fundamental para regulação e manutenção das espécies no planeta.

O homem que é gay e negro deve ter muito orgulho de si, de suas origens, de sua rica cultura e de sua beleza física. Viva o homem gay e negro!

João Batista Pedrosa
pedrosa@syntony.com.br

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