Para seu filho ficar no Reino Unido, pai africano se suicida.


O drama dos Bravo na Inglaterra

New York Times
Por Por Nina Bernstein, de Clapham, Inglaterra | New York Times – 23 horas atrás
 
O garoto tinha 13 anos quando uma batida da imigração abruptamente encerrou a busca por asilo político de quatro anos de seu pai na Grã-Bretanha. Ao anoitecer naquele dia em 2005, pai e filho estavam a centenas de quilômetros de casa, trancados do Centro de Remoção de Imigrantes Yarl’s Wood, de administração privada, programados para serem deportados para sua terra natal, Angola, pela manhã.

Em vez disso, um pouco depois da meia-noite, o pai desesperado, Manuel Bravo, 35 anos, subiu uma escadaria com um lençol e se enforcou. O bilhete que deixou dizia o porquê: para que seu filho órfão pudesse ficar na Grã-Bretanha.

De fato, a lei não permite que autoridades de imigração deportem um órfão que não tem ninguém esperando por ele. A família britânica, que os Bravo conheciam pela igreja, levou o garoto, Antônio, de volta para Armley, um subúrbio de operários em Leeds, onde haviam se estabelecido em 2001.

Antônio, agora com 19 anos, é aprendiz de eletricista e deseja tornar-se engenheiro. Não muito distante do túmulo de seu pai, ele divide uma casa centenária com quatro colegas britânicos e visita a família que o criou regularmente. “Quero que meu pai fique orgulhoso e que não sinta que abriu mão de sua vida sem motivo”, disse ele.

Porém, em setembro, Antônio enfrenta a ameaça de deportação novamente. Por uma mudança nas leis, ao invés de se qualificar para a cidadania este ano, como esperava, ele não é elegível para tal. Sua permissão de residência temporária, concedida em bases humanitárias, está vencendo sem um caminho claro para renovação.

A história de Antônio é emblemática, pelos crescentes esforços do país para repelir a migração indesejada, por um sistema de sanção regido parcialmente por contratantes privados.

Assim como governos do mundo ocidental, a Grã-Bretanha passou por uma crescente pressão para aumentar as expulsões, cortar a imigração e restringir a cidadania. Para oficiais, está em risco a “imigração controlada”, uma forma de manter a entrada de imigrantes desejáveis e refugiados genuínos, excluindo forçadamente os rejeitados _ também reprimindo a hostilidade contra estrangeiros, que cresce da Austrália e dos Estados Unidos à Noruega e a França.

“É ainda mais importante que a controles de imigração apropriados não só estejam em ação, como pareçam estar em ação”, disse em setembro do ano passado Damien Green, ministro da Imigração da Grã-Bretanha, após abrir duas novas alas em outro centro de detenção de administração pública, próximo ao aeroporto de Heathrow. “Se não gerarmos a confiança pública em nosso sistema de imigração, continuaremos vulneráveis àqueles que querem encontrar bodes expiatórios para problemas sociais”.

Contudo, alguns analistas afirmam que, pelo contrário, o surto de prisões e deportações legitimou o tratamento de estrangeiros como bodes expiatórios, aumentado os anseios do povo e maiores necessidades de restrições.

Uma família em fuga

No começo, os Bravo eram uma família de quatro: Bravo, calmo e quieto; sua esposa espirituosa, Lídia; seu filho, Nélio, de 3 anos; e o filho de Bravo, Antonio, de 10 anos, cuja própria mãe morreu lhe dando à luz, em Angola. Em documentos de asilo, Bravo se descreveu como fazendeiro, preso e abusado pelo governo angolano, por sua atuação em um partido pró-democrático fundado por seu pai. Ele declarou ter fugido por sua vida após forças de segurança invadirem a fazenda da família e matarem seus pais e irmãs. Angola estava na época no 27º ano de uma guerra civil.

Os Bravo pediram asilo quando chegaram ao aeroporto de Heathrow, em outubro de 2001. Impedido de trabalhar como a maioria dos solicitantes de asilo na Grã-Bretanha, eles foram enviados a Armley para aguardar uma decisão. Eles encontraram apoio na Igreja de Cristo, vindo de Catherine Beaumont, voluntária em seu centro de imigração, e o reverendo Apistair Kaye, na época vigário.

Porém, seu requerimento juntou-se a vários outros, de acordo como o número de solicitantes de asilo atingia o pico de 84 mil por ano, em 2002. A hostilidade pública aumentava também, com base em revelações de que aqueles que tiveram o asilo negado nunca haviam deixado o país.

O centro de detenção Yarl’s Wood estava acabando de ser inaugurado, como parte de uma expansão, em que o governo e seus parceiros privados prometeram que triplicariam os índices de expulsão. Em vez disso, em três meses, o centro de US$ 140 milhões foi consumido pelo fogo, durante protestos de detentos por maus tratos.

Yarl’s Wood foi reconstruído. A detenção de solicitantes de asilo rejeitados aumentará, o secretário de Estado disse ao Parlamento em 2005, “ao ponto em que se torne regra que aqueles que forem rejeitados sejam detidos”.

A declaração se encaixava em uma estratégia de duas frentes do primeiro-ministro Tony Blair, que na época estava abrindo portas para muitos imigrantes, incluindo especialistas em computação da Ásia e pessoas dos novos membros da União Europeia.

O requerimento de Bravo foi rejeitado em 2004 por um analista que afirmou haver evidências insuficientes para apoiá-lo. Bravo não tinha um advogado para sua audiência. A longa espera por uma decisão levou a conflitos no casamento de seu pai, acrescentou ele, e piorou sua própria relação com a madrasta.

No primeiro semestre de 2004, a família se separou. Levando Nélio, Lídia Bravo voltou a Angola para cuidar de parentes muito doentes. Ela foi presa e fugiu novamente, para a Namíbia, de acordo com mensagens remetendo à época. Manuel Bravo tentou contatá-los desesperadamente, disse o vigário Kaye, e não viveu o suficiente para saber que ela chegou a Portugal, onde ganhou asilo e desapareceu.

Na manhã de 14 de setembro de 2005, seis oficiais invadiram a pequena casa dos Bravo. “Não consigo tirar isto da minha cabeça”, disse Antônio. “Eles irromperam pela porta, apontando lanternas. Eles nos algemaram _ me senti um criminoso, e não fiz necas” _ nada, no dialeto do norte da Inglaterra.

Posteriormente, em um relatório no caso de Bravo, o ombudsman de prisões questionou a necessidade de tal “exercício robusto do poder do estado”, após tanta inatividade, denominando-a “francamente cruel”. Porém a batida seguiu procedimentos padrão, concluiu ele.

A máquina de detenção

Os Bravo entraram no mundo da sanção de imigração terceirizada. Na prática, estavam sob a custódia de uma empresa anglo-dinamarquesa, agora conhecida como G4S.

Os guardas os levaram por casas de tijolos e campos abertos em Bedfordshire para uma antiga base militar, onde fica o centro de detenção Yarl’s Wood, desenvolvido pela empresa em 2001, por trás de arame farpado.

Contratantes agora dirigem sete dos 11 centros de detenção de imigrantes da Grã-Bretanha, onde a capacidade aumentou 75 por cento desde 2001. O único dia de Bravo sob custódia está documentado em poucos detalhes em registros do inquérito. O que ainda assombra Antônio é o momento em que guardas de transporte da G4S descobriram uma corda de varal nova na mala de seu pai. Eles tiraram a corda de Bravo, que estava em tratamento para depressão, mas nunca alertaram Yarl’s Wood. A G4S se recusou a fazer comentários nesta matéria sobre suas operações, em geral ou no caso específico de Bravo.

Uma enfermeira em Yarl’s Wood, contratada por outra subcontratante, confiscou os antidepressivos de Bravo e não perguntou se ele era suicida _ por medo, testemunhou ela, de colocar a ideia em sua cabeça. Inquéritos oficiais concluíram que esses lapsos não fizeram diferença.

Pai e filho foram escoltados por oito portas trancadas para seu quarto, onde Antônio esperou, enquanto Bravo fazia ligações, como últimos apelos.

Uma foi para o vigário, que não conseguia contatar oficiais do governo. “Ele estava realmente lutando”, disse Kaye. “Ele estava aterrorizado de voltar”.

Quando Bravo voltou ao seu quarto, disse Antônio, ele trouxe más notícias: sua deportação estava agendada para as 10h30. “Ele disse, ‘O que quer que aconteça, seja corajoso e forte e tenho orgulho de você'”.

Assimilado e rejeitado

Apesar dos esforços de advogados de Londres, o requerimento de asilo de Antônio foi rejeitado em 2006, pelo fato de as autoridades já terem rejeitado a reivindicação política de seu pai. Contudo, ele recebeu uma concessão de proteção humanitária de cinco anos, que na época poderia levar à cidadania.

Seu inglês acompanhou o ritmo de Yorkshire; ele esqueceu o português. Quando o seu subsídio de adoção terminou aos 18 anos, ele estava ganhando a vida como aprendiz de eletricista, realizando a façanha de ser o único homem negro em sua equipe, economizando para as taxas de cidadania e a universidade.

“Meu pai me disse para ser forte e me educar”, disse Antônio. “E para mim, conseguir um passaporte é o mais importante”.

Porém, enquanto Antônio tentava se tornar britânico, preocupações britânicas com a imigração estavam aumentando. Um estudo para o Instituto de Política de Imigração, sediado em Washington, instigando anos de pesquisas de opinião pública, mostram que mesmo antes da crise econômica, quase sete a cada dez britânicos achavam que o país tinha imigrantes demais.

Durante a recessão, a atitude piorou, quanto à competição injusta percebida para trabalhos e serviços públicos e quanto ao medo da Grã-Bretanha ficar ‘inundada’ de estrangeiros. Apesar de 10 por cento da população da Grã-Bretanha ter nascido no exterior _ menos que na França e na Alemanha _ maioria das pessoas acreditava que o número chegava a 25 por cento.

Uma reação política foi uma revisão da lei de cidadania que rompia a relação entre a residência temporária e a permanente.

A década de Antônio na Grã-Bretanha, manchada com nove meses de situação ilegal quando era criança, não é mais suficiente para requerer a estada permanente. Ele não possui parentes britânicos ou habilidades excepcionais, outros caminhos para a naturalização.

Sua permissão para ficar vence em 18 de setembro. Em sua categoria _ de proteção humanitária _ ele deve esperar até 28 dias antes da data para pleitear uma extensão e, de alguma forma, mostrar que sua necessidade de proteção não mudou.

c. 2011 New York Times News Service

 

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